Isolada no AM, Luísa ‘Lovefoxxx’ dá pausa na música e se dedica à pintura

Luísa Matsushita ficará em Manaus até o final de agosto (Foto: Diego Toledano/ G1 AM)Luísa Matsushita ficará em Manaus até o final de agosto (Foto: Diego Toledano/ G1 AM)

A paulista Luísa Matsushita acorda às 7h todas as manhãs em um sítio cravado na Floresta Amazônica. Em contato direto e extremo com a natureza, a artista de 31 anos prepara cerca de 20 quadros que estarão expostos na Galerie L’Amazonie, em Manaus. As telas só serão reveladas ao público no dia 26 de agosto, quando a mostra abre.

A rotina calma e espiritual, como ela define, quase faz com que esqueçamos que a artista é a mesma que, com a alcunha de “Lovefoxxx”, já liderou a banda alternativa Cansei de Ser Sexy (CSS), de sucesso internacional. Hoje focada no mundo dos pincéis e das desafiadoras telas em branco, ela falou ao G1 sobre inspiração natural e a origem das pinceladas que a libertaram como a artista que sempre desejou ser. “Eu tô dando minha vida pra isso”, revelou.

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O convite para a residência artística aconteceu em junho deste ano. Segundo Luísa, trabalhos anteriores chamaram a atenção dos galeristas manauaras, que a convidaram para ser a artista responsável pela exposição de abertura do local.

“Eles já haviam comprado dois quadros meus. Entre os dois galeristas e a minha agente, surgiu a ideia da residência. Perguntaram quanto tempo eu queria fazer e até havia uma conversa de que fossem dez dias, mas eu pedi dois meses. Eu queria três, mas dois é tempo suficiente”, contou.

Tem sido a melhor terapia de imersão espiritual que já fiz”
Luísa Matsushita

A residência consiste na estadia de 60 dias em um sítio localizado na zona rural de Manaus, sem qualquer tipo de conexão à internet. Em tempos em que a vida real se passa na maior parte do tempo em telas digitais, a artista contou que ficar sem internet tem sido “a melhor solução da vida”.

“Todo adulto deveria passar uns dois meses sem internet. No começo, é difícil; parece que dá uma dor e que você está doente. É chato, porque você não tem nada, absolutamente nada, então você tem que se encarar e encarar seus problemas. Tem sido a melhor terapia de imersão espiritual e emocional que eu já fiz”, explicou.

Sem distrações como mensagens, e-mails e filmes possibilitados pela internet, a produção tem fluído. Até a terça-feira (11), a pintora havia fechado 13 quadros. Segundo ela, o jejum de conexões virtuais tem ajudado no que chamou de “monofoco” durante a entrevista. “Não há distrações. Você lida com o que precisa e mantém o foco no que é importante”, definiu.

A banda CSS (Foto: Divulgação)A banda CSS (Foto: Divulgação)

A produção é o único objetivo da artista durante a residência. Luísa comparou as dificuldades de ficar sem contato com o mundo digital com a subida de uma montanha russa. “A subida é difícil, parece mais lenta. Só que você persiste naquilo e depois você mergulha naquele nível maravilhoso para conseguir produzir e encontra outras coisas. É muito gostoso e me dá alegria, leveza e força. Aqui não tem desculpa para estar mal, com drama. Aqui, se você está passando mal, o problema é com você”, avaliou.

‘O abstrato faz muito sentido’

Os quadros – feitos em papel telado com tintas acrílica e a óleo – aos poucos ganham nomes. Entre os já finalizados estão “Banzeiro”, “Deixa Ir” e “Bagunça Boa” – uma das peças que mais destaca o DNA abstrato da arte de Luísa.

“Alguns deles têm elementos figurativos, como folhas. A questão é que, mesmo quando eu pinto folhas, não significa que seja apenas sobre as folhas. É difícil saber o que ela é”, comentou.

Além de folhas, outros aspectos do sítio têm se revelado diante de Luísa Matsushita. Insetos desconhecidos aparecem com certa frequência entre as peças já finalizadas. Um exemplo disso é um que ela decidiu chamar de “Cachorro Unicórnio”, por ter uma antena.

A única coisa que eu tenho é uma fé e um amor por cada pincelada que eu dou”
Luísa Matsushita

“Ele ficou andando pela pintura por horas!”, contou. “Na pintura abstrata, não escolho o que vou fazer; ela flui por mim. Os insetos estão aparecendo bastante, na verdade, porque são com eles que tenho tido mais contato de algo vivo, que se mexe”, acrescentou.

A Amazônia não para de surpreender e inspirar a pintora. O famoso Encontro das Águas é uma das inspirações para um possível quadro. A dança de águas que não se misturam emocionaram a artista e a levou a pensar em uma peça.

“É algo que estou pedindo para ver. Quando eu pinto, tenho uma primeira intenção, mas a única coisa que tenho é uma fé e um amor por cada pincelada que eu dou. Eu não tenho o controle. Eu tinha começado com retratos, mas o abstrato faz muito sentido pra mim. Ele é uma analogia à vida: você tem como controlar até certo ponto, e depois você vai conhecendo pessoas e a vida vai desenrolando”, comparou.

Pressão

Ao passo que cores e seres amazônicos inspiram a alma artística, os “musos” aumentam a pressão sobre a artista para expressar todos os elementos nos trabalhos. Segundo ela, o pensamento inicial era o de que “precisava colocar tudo na pintura”. Hoje, a artista se diz mais relaxada e confiante para deixar a arte fluir. “O máximo que posso fazer é pintar o máximo que eu puder para que elas venham da forma que elas vierem. O artista é instrumento e não autor. Acredito muito nesse ditado”, frisou.

Artista já finalizou 13 obras durante residência no Amazonas (Foto: Diego Toledano/ G1 AM)Artista já finalizou 13 obras durante residência no Amazonas (Foto: Diego Toledano/ G1 AM)

No início das negociações, o número de pinturas finalizadas que a artista teria que apresentar na exposição chegava a 20. A experiência do isolamento, porém, revelou uma realidade diferente – em que a pintura dita quando está pronta, e não a artista. “Eu estou entendendo que cada pintura tem seu tempo, que não posso querer fazer uma por dia, ou três por semana. No início, eu me pressionava muito pra terminar os 20. A questão é que a pintura é quem manda. O que posso fazer é trabalhar todo dia, o dia todo”, ressaltou.

Profissão: pintora

Quando questionada sobre o momento em que se percebeu pintora, Matsushita “voltou aos 8 anos”, em uma ida à padaria com a mãe. Desde então, seu cerne artístico tem sido revelado aos poucos: a moda aos 16 anos, dois meses de faculdade de design gráfico e, por fim, a carreira musical como vocalista da banda Cansei de Ser Sexy. “A pergunta do ‘o que você quer fazer?’ era muito recorrente em casa, então nesse dia da padaria aos 8 anos falei que queria fazer alguma coisa relacionada com arte. Sempre foi muito simples essa vontade, mas demorei para assumir isso”, disse.

A música serviu para mostrar que qualquer coisa pode ser emprego”
Luísa Matsushita

A artista tinha 28 anos quando decidiu colocar o projeto musical em pausa. “Foi quando eu decidi que tinha que parar tudo e pintar, sabe? Ou eu me dedicava a isso ou ia morrer. Eu estava muito estranha, não sabia o que era”, disse, destacando que a música serviu para acender a artista que sempre foi. “A música não foi uma escolha; ela aconteceu para mim. A música serviu para mostrar que qualquer coisa pode ser emprego. Eu nunca tive ambição de fazer música, e foi uma coisa fantástica. Eu estou muito feliz e realizada pintando agora”, garantiu.

Cada vez mais imersa no mundo dos pincéis, Luísa disse que tem entregado a vida à arte. Segundo ela, os planos para o futuro – que envolvem inclusive um trabalho ainda secreto para as Olimpíadas – são dedicados à tela em branco. “Eu me encontrei e voltei pra mim, com a pintura. Ela foi um abraço de ‘volta pra casa’. Eu tenho plano de pintar muito nos próximos três anos, não importa onde eu esteja.  Eu estou muito ocupada, e muito, muito feliz”, finalizou.

Artista costuma passear em sítio para relaxar (Foto: Diego Toledano/ G1 AM)Artista costuma passear em sítio para relaxar (Foto: Diego Toledano/ G1 AM)

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