‘Ouvi muito que quadrinhos eram coisa de menino’, diz tradutora

Dandara Palankof, de 30 anos, editora e tradutora das HQs 'Estranhos no paraíso' (Foto: Arquivo pessoal)Dandara Palankof, de 30 anos, editora e tradutora das HQs ‘Estranhos no paraíso’ (Foto: Arquivo pessoal)

A tradutora recifense Dandara Palankof, de 30 anos, aprendeu a ler com um gibi do Cebolinha, da “Turma da Mônica”. Mas seu primeiro super-herói preferido foi o Homem-Aranha, graças a gibi dado pelo seu padrasto. “Com uns 15 anos, comecei a diversificar um pouco mais a leitura para além de heróis”, diz.

“Supergirl” ganhou sua primeira série e “Mulher-Maravilha” vai aparecer pela primeira vez no cinema. Mas não é só isso. Há duas vilãs no aguardado “Esquadrão Suicida” e polêmicas envolvendo o sexismo no mundo dos super-heróis e super-heroínas. O G1 publica as opinões de quatro mulheres que se divertem e trabalham com esse universo.

SUPERFEMINISTAS
Mulher-Maravilha, Supergirl e sexismo

Formada em Rádio e TV pela Universidade Federal de Pernambuco, ela faz mestrado em “linguagem dos quadrinhos enquanto comunicação de massa” e escreve sobre o tema em sites. “Sempre me saltou aos olhos a estética feminina nas histórias de super-heróis. Comecei a ser leitora de quadrinhos de heróis nos anos 90, que foi quando ficou muito escancarado isso de roupas ultramente sexuais e corpos irrealmente delineados, feições sempre muito lascivas”, afirma.

“Comecei a questionar o fato de não ter muitas personagens femininas em  destaque. Raramente você via uma com título próprio. Você nunca via uma que fosse líder de grupo. A coisa é engessada. São valores que vão se perpetuando desde o princípio das histórias de super-heróis. Ouvi muito que isso é coisa de menino, o que faz parte da cultura machista em que vivemos.”

Capa da HQ 'Tempos de colégio', da série 'Estranhos no paraíso' (Foto: Divulgação)Capa da HQ ‘Tempos de colégio’, da série

‘Estranhos no paraíso’ (Foto: Divulgação)

Gibi com relacionamento gay

Dandara trabalha na editora HQ Maniacs, onde traduziu volumes da série de revistas “Estranhos no paraíso”: “Inimigos mortais”, “Tempos de colégio” e “Santuário”.

“Tenho ligação pessoal com esse gibi, porque foi o primeiro que acompanhei na adolescência. Eu tinha 13 anos quando saiu por aqui e era um dos poucos gibis com foco em um relacionamento homossexual. Para mim, uma adolescente saindo do armário, foi muito importante.”

“A série ficou parada porque a editora teve problemas, mas está sendo retomada. Saiu um volume ano passado e espero que saia outro agora em agosto.”

De secretária à heróina

Para Dandara, quanto mais meninas se encantarem pelo universo das histórias de heróis (e heroínas) mais vão perceber que não são representadas de acordo com o que elas acreditam ser a imagem da mulher. “A gente vai cavando e esperando que, mais de 70 anos depois do surgimento desse gênero, as coisas possam ser mudadas.”

A heroína Mulher Maravilha adota a identidade de Diana Prince, a secretária de Steve, na série de TV dos anos 70 (Foto: Divulgação)A heroína Mulher-Maravilha adota a identidade de Diana Prince, a secretária de Steve, na série de TV dos anos 70 (Foto: Divulgação)

“Um amigo me mandou uma página de um dos gibis da Mulher-Maravilha do começo dos anos 50, logo no surgimento da personagem quando ela entra para a Sociedade da Justiça, e é convidada para integrar o grupo como secretária! Isso porque a Mulher-Maravilha foi criada com o intuito de ser uma personagem feminina diferente só que o contexto da época ainda assim é muito forte”, afirma.

Em julho de 2014, a Marvel Comics anunciou a transformação de Thor em mulher como um esforço editorial para atrair leitores, especialmente mulheres. A Marvel disse que o público feminino estava sendo ignorado pelas editoras de quadrinhos há bastante tempo, sendo que o título em que Thor será mulher é apenas o oitavo da Marvel com protagonista feminina.

Thor será mulher em nova série de história em quadrinhos, anuncia a editora Marvel Comics. (Foto: Divulgação/Marvel)Thor será mulher em nova série de história em quadrinhos da Marvel Comics (Foto: Divulgação/Marvel)

“O fim do sexismo vai demorar como toda mudança significativa na sociedade. É muito bom que a gente tenha todo esse barulho, mas não vai mudar de hoje para amanhã. Contudo, é legal ver mais nos quadrinhos do que no cinema uma tentativa de ampliar essa diversidade. Nos filmes já é mais complexo. É um público mais amplo que os quadrinhos”, diz.

“Os filmes de super-heróis ainda são, na maioria, bem sexistas. Não dão tanto espaço assim para as personagens femininas. Estou curiosa para ver o ‘Esquadrão suicida’, que tem duas personagens femininas. Quero ver como vai ser o espaço delas na trama, em que contexto vão ser retratadas. A Arlequina é interessante porque nos quadrinhos ela tem uma relação abusiva com o Coringa. Corre-se o grande risco de no filme ser suavizado, porque o Coringa, apesar de ser um vilão psicótico, é amado por muita gente.”

Margot Robbie é a Arlequina no filme 'Esquadrão suicida' (Foto: Divulgação)Margot Robbie é a Arlequina no filme ‘Esquadrão suicida’ (Foto: Divulgação)

Chega de ‘chick flick’

Dandara cita o diretor Joss Whedon como “um dos poucos criadores em Hollywood a ter a preocupação em dar espaço a personagens femininas”. “Ele fez fama, na verdade, com uma personagem diferente do que se via até então, que é a Buffy [a caça-vampiros]. Dentro dos limites do possível, o Joss Whedon tem feito um trabalho interessante em inserir a Viúva Negra no universo cinematográfico da Marvel. Que as espectadoras passem a se interessar pelas heroínas do cinema e passem a pedir que as personagens sejam retratadas mais que do um par de pernas e um par de peitos para deleite estético dos homens.”

Melissa Benoist como 'Supergirl' (Foto: Divulgação)Melissa Benoist como ‘Supergirl’ (Foto: Divulgação)

Em abril deste ano, quando “Vingadores: Era de Ultron” foi lançado, o programa “Saturday Night Live” satirizou a Viúva Negra como se ela estivesse em um “chick flick” (gíria para o gênero de filmes românticos voltado ‘para meninas’).

Dias depois dessa paródia, saiu o trailer da série de TV “Supergirl”. O vídeo foi bastante criticado exatamente por parecer um “chick flick” ao destacar a atriz Melissa Benoist como uma garota doce que encontra um romance.

“Apesar das características de ‘filme de menina’, ouvi muita gente comentando, quando o episódio piloto vazou, que a série é diferente do que o trailer deu a entender. É uma série que almeja um público maior e não tem a pretensão de criar discussões em torno da representação feminina, a não ser o fato de ter uma mulher como protagonista”, diz Dandara.

“Toda vez que se fala de representação feminina você ouve muito que é mimimi, que quadrinho de super-herói é para o público masculino e pronto, e as meninas têm que ficar caladas e aguentar o que vier. Mas é cada vez maior o número de homens que entendem que as minorias são deixadas de lado e que dão muito valor a essas discussões em vez de tentar nos silenciar.”

Scarlett Johansson participou de trailer falso de filme da Viúva Negra no 'SNL' (Foto: Reprodução/Youtube)Scarlett Johansson participou de trailer falso de filme da Viúva Negra no ‘SNL’ (Foto: Reprodução/Youtube)

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